segunda-feira, 11 de junho de 2018

Profundas Minúcias



Ele acordara com o peito ardente, a boca seca e o bolo - aquele bolo que habitava sua garganta havia tempos - mais incômodo do que nunca.

Às vezes ele se sentia pequeno. Não em tamanho, - ele se sentia ok sobre isso -, mas por seus pensamentos. Era como se, por vezes, o ar o comprimisse para dentro de si mesmo e ele perdesse o controle das ideais.

Na noite anterior, ela o levara em casa e ele se sentiu diferente. Não, não era clichê, desses ditos para a pessoa de quem se gosta. Ela o havia feito se sentir... pequeno. Toda aquela segurança, todo o seu jeito de lidar com as coisas, o modo como ela conseguia dirigir a vida e o próprio carro como se nada mais importasse. Ele se impressionara, de um jeito que não fazia há bastante tempo. Era um misto de admiração e medo. Ele tinha medo de não bastar, de sucumbir antes mesmo de iniciar a subida.

Era o efeito da adrenalina em um esporte radical.

Fazia frio naquela manhã e nem mesmo o chá quente em suas mãos parecia adiantar. Todavia, o frio em sua pele atestava que ele estava vivo, lhe dizia para respirar fundo, ainda que a compressão em sua cabeça continuasse exponencialmente. Ele saiu para a varanda e, tirando um cigarro recém bolado de dentro do bolso do moletom, acendeu-o.

Inspira...

Prende...

Expira...

Os círculos de fumaça sempre foram algo que ele almejara conseguir fazer. Ainda estava tentando.

O frio concentrava-se em seus lábios como se nenhuma outra parte do corpo tivesse importância. Ele sentia a pele da boca se dividindo com um mísero movimento, o gosto do sangue se misturando ao da erva a queimar sua garganta.

A ardência do peito diminuiu. A pressão sobre sua cabeça pareceu ceder um pouco. Mas não havia nada que ele pudesse fazer com o bolo.

Ele apagou a ponta do cigarro na parede, guardando-a no bolso e entrou em casa. Serviu-se novamente de chá, colocando por cima da xícara nova a tampa de pressão, tudo comprado na loja de artigos importados, aquela famosa. Foi até o quarto e, sem acender a luz, agachou-se ao lado da cama, colocando a xícara no móvel de cabeceira.

Ela dormia um sono profundo e tranquilo, enrolada até o pescoço no cobertor de lã surrado. Ele teve vontade de acariciar seu rosto, fazer cafuné em seus cabelos embolados num coque estranho que só ela sabia fazer,  mas preferiu não ser a causa de seu acordar repentino.

Ficou ali, olhando para ela no escuro do quarto por um tempo incontado. Ela era gigante. Aqueles um metro e sessenta pareciam dois. Sem esforço ou premeditações, ela crescia, brilhava e ele se pegava acanhado e amedrontado, quase como um menino que tentasse andar de skate pela primeira vez.

O bolo em sua garganta se moveu, para cima e para baixo. Se tivesse sabor, ele uma vez pensara no assunto, com certeza seria de algo bem amargo. Certamente não chocolate. Ele engoliu a saliva com força, buscando amaciar o que quer que estivesse morando em sua garganta. O movimento fez seu peito arder e ele perdeu o equilíbrio, apoiando-se na mesa de cabeceira e rangendo o chão.

Ela se moveu felinamente na cama, abrindo aqueles olhos grandes e borrados de maquiagem, fixando-os nele.

Sol.

Calor.

Sorrindo, ela esticou as mãos, tocando-lhe os cabelos desgrenhados. O que quer que ele tinha na garganta e no peito fizeram uma festa dentro dele, parando no estômago.

- Você está com cheiro de chá - ela disse, como se aquela afirmação fosse a mais importante do mundo naquele momento.

- Eu ouvi dizer que você gosta muito de ervas - ele disse, completando o ciclo de duplos sentidos.

Abrindo ainda mais o sorriso, ela pegou a xícara da cabeceira e, recostando-se na cama, começou a beber. Ele se levantou e saiu do quarto, abrindo um pouco da cortina ao passar.

Ele não era bom com palavras, por isso fugia de conversas longas. Mas desde a noite anterior vinha pensando na maneira mais bonita de dizer que sentia por ela aquele grande clichê.

Ele sorriu, passando os dedos entre os cabelos. Realmente estava cheirando a chá.


- B. R.

quinta-feira, 8 de março de 2018

8 (ou Infinito)



Hoje, me olhei no espelho e gostei do que vi. Os olhos, que por muitos dias se anuviavam, deram espaço para dois pequenos sóis. As bochechas, outrora grandes e coradas, que agora encovavam a face como numa encenação de Morte e Vida Severina, hoje estavam ligeiramente mais protuberantes. Meus cabelos, longos e brilhantes, que há algumas semanas sentiram o leve peso da tesoura a lhes picotarem num momento de solidão, estavam daquela cor ruiva que só se fazia ver quando se aproximava a primavera.
Observei os ossos em pontos da cintura, as saboneteiras salientes que até pouco tempo jamais couberam nenhum sabonete, a tatuagem de dragão que agora parecia adormecido, a boca avermelhada e carnuda que permanecera bela. Eu me sentia bem.

Hoje era meu dia. Eu não havia recebido flores, chocolates, presentes ou abraços. Não recebi visita de um amor, não ouvi elogios vindos das ruas, tampouco fui marcada numa publicação com foto feliz. Não me disseram que eu era linda, que merecia o mundo, que tudo ficaria bem e que os maus momentos passariam. Não recebi convites para jantar, para ir ao cinema ou para passar o dia ouvindo música na jukebox do antigo bar da esquina. Ainda assim, hoje era o meu dia, e eu me olhei no espelho e gostei do que vi.

Eu vi o futuro. Em cada marca, em cada lágrima, em cada curva e curvatura, ali estava o meu  ontem, o meu hoje e o meu amanhã. Mais uma primavera que floria a esperança infinita de ser, com orgulho, minha maior fã.

Passei meu batom mais bonito e, sorrindo de canto a canto, me beijei. 🔴⚫⏺️

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

[ T o q u e ]

Ele chegou em casa, depois de um dia extremamente cansativo. Passou pelos longos cômodos até chegar ao quarto, cansado e repleto de um orgulho que há muito não sentia.

Trabalhar com música o fazia se sentir vivo. Poucas coisas no mundo eram capazes de mexer com os sentimentos das pessoas como letra & melodia, e ele, agora já crescido e adulto, percebia que havia nascido para aquilo.

O dia tinha sido bom. Gravara duas músicas em estúdio, fechara dois trabalhos para os próximos meses e ainda tivera tempo de passar em um pequeno bar no caminho de casa e prosear com alguns velhos amigos. Agora, contudo, ele só queria deitar e fechar os olhos.

Tirara a camisa, largando-a pelo chão do quarto e se jogara sobre a cama ainda bagunçada. Sentiu o corpo relaxar, os músculos se descontraírem e o cansaço se abater sobre ele.

Estava quase adormecendo quando uma pequena onda de vibrações percorreu a sua coxa. Colocando a mão no bolso da calça, retirou o celular e viu que havia uma série de mensagens. Sem muita paciência, percorreu os olhos por elas, absorvendo vagamente o conteúdo. Havia muitas mensagens de admiradores do seu trabalho, pessoas querendo parcerias e mais algumas elogiando algum de seus vídeos veiculados na internet. Outras tantas eram de outro teor. Ele vinha aprendendo que a ascensão como um dos músicos mais promissores da atualidade trazia consigo um assédio muito grande, e muitas das vezes de jovens extremamente bonitas, dentro daquilo que ele considerava ser o seu "padrão". Ele geralmente respondia, dava certa atenção, afinal, não havia justificativas para que não fosse gentil e educado. Suas redes sociais cada vez mais vinham se abarrotando de elogios, mensagens de duplo sentido, convites inesperados, às vezes fotos muito reveladoras. Ele lidava com aquilo da melhor forma possível, cuidando para que soubesse discernir entre sinceridade e mero interesse pelo que se poderia conseguir com a sua fama. Entretanto, a sua empolgação com esse tipo de mensagem era passageira.

Ele fechou os olhos. A única imagem que via era dela. Ela. E ele tinha ferrado com tudo.

Nunca se imaginou apaixonado, perdido em pensamentos e planos para o futuro, mas em menos de dois meses, era exatamente assim que ele estava. O peito pulando com a ansiedade a cada vez que pensava em encontrar com ela, em lhe fazer uma surpresa ao final do dia, em imaginar que ela estaria na plateia no próximo show. Ele se apaixonara à primeira vista de seu sorriso, e jamais se imaginou tão leve e completo. Ela era pura energia, contagiante em sua alegria, seus cabelos que reluziam ao menor sinal da lua e o coração mais repleto de amor que ele já tivera a chance de conhecer.

Mas ele estragou tudo. Com o tempo, ele se afastou. Mergulhou tão profundamente no trabalho que não mais a via. Se ela mandava mensagens, respondia de maneira seca, sem aquela profusão de palavras que tanto a encantaram. Ele se lembrava de quando a presenteara com uma música improvisada ao final da noite, depois de pegá-la na faculdade e a levar para o mirante mais bonito da cidade. Ele dedilhara no violão uma canção de pouco mais de um minuto, e quando olhou para ela, viu o choro mais lindo de toda a sua vida. Foi naquele momento que ela se abrira para ele, fazendo-o perceber que por mais radiante que ela fosse, ela não estava acostumada com o amor.

E ele, aos poucos, fugira. Hoje percebia tudo com clareza. Aquela luz pela qual ele se apaixonara perdidamente nela foi aos poucos se tornando opaca, tremeluzente. Com o seu próprio afastamento e consequente fechamento, conseguia traçar cada um dos sintomas refletidos nela. As palavras de amor ditas pela sua doce voz se tornaram pequenas e receosas, quase como se ela lhe pedisse desculpas cada vez que as pronunciava. Os encontros duravam cada vez menos e ela, que nunca reclamava de nada, apenas saía, e ele agora entendia que o avermelhar de suas faces não eram blush. Os shows em que ela fazia questão de prestigiar, sentada sempre aos fundos do ambiente, deixando que as fãs nem soubessem de sua existência, aos poucos foram se tornando esporádicos... até que ela não mais estava lá. Ela não estava mais lá, pois não suportara amar sozinha.

Ele lhe ofertara o mundo e a deixara viver nele sem a sua companhia. A verdade é que ele fugira para as suas próprias músicas sem perceber a tempo que a melodia mais importante não vinha de seus dedos, mas do pulsar do peito.

Abriu os olhos, sentindo o rosto quente e molhado. O mesmo avermelhar da face que ele agora sabia que ela provavelmente sentia todas as noites em que ele se fizera partir. Partir... Esse verbo que obrigatoriamente possuía dois gumes. Ele, fugindo daquilo que mais ansiava, partira, e ela se partiu em pedaços.

O telefone vibrou novamente e ele abriu a caixa de mensagens só para ver mais elogios, tentações e possibilidades. Apertou o botão de desligar, colocou o aparelho em cima da cômoda e pegou o violão.
Fonte: Pinterest
Na noite em que a levara ao mirante, ele tinha dito a ela que guardasse aqueles minutinhos de improviso na memória, porque ele não se lembraria da música após algumas cervejas e cigarros. Tinha dito aquilo apenas para descontraí-la, deixá-la mais à vontade e vê-la sorrir aquele sorriso que revirava tudo do avesso. Quando chegara em casa naquela noite, contudo, terminara de compor a canção, mas nunca lhe dissera nada. Talvez a sua autossabotagem já despontasse ali.

Dedilhou-a toda no violão, sem se importar com a hora e o possível incômodo dos vizinhos. Uma das músicas que gravara em estúdio mais cedo era justamente essa. Em alguns dias a estrearia ao vivo, de forma inédita antes de divulgá-la na internet. Dissera aos seus produtores que era para causar mais impacto, mas no fundo de seu tão apertado peito sabia que fazia aquilo na esperança de olhar para um único par de olhos no fundo do salão e ter a chance de recomeçar.




- B. Rolff

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

[ D E U S ]


Eu nunca quis ser Deus. Pensar em mim mesmo como alguém cujos ouvidos se enchem de lamúrias de fiéis, de pessoas desesperadas em busca de apoio e de todos aqueles que me procuram apenas nos momentos difíceis, nada disso nunca me interessou. Nem mesmo a sensação de onipotência, onipresença e onisciência, de meu poder misericordioso ou de ajuda, de demonstração de grandeza e importância serviam como chamariz para um título divino. Não, eu nunca quis ser Deus. Mas eu era.

 Não foi algo que escolhi, mas uma condição imodificável. Simplesmente era desse jeito, e não havia o que eu pudesse fazer para que isso se modificasse. Todos os dias me eram consumidos pelo dever de agir conforme as minhas atribuições, conforme os pressupostos não estabelecidos por Ninguém, mas existentes desde o início dos tempos. Em meu caso particular, cabia a mim ser um Deus obscuro, muito mais temido do que adorado, muito mais culpado do que bendito. Eu, dentre todos os Deuses, era o Deus da Morte.

Talvez o nome fosse carregado de uma aura sombria, contribuindo para uma má compreensão dos fatos, mas a verdade é que eu tinha, acima de tudo, a vida em minhas mãos. Cabia a mim decidir o caminho de cada um que andasse sobre a Terra, e no momento de sua morte, encaminhá-lo a uma das possíveis direções: o Céu o ou o Inferno. Não, não como nos livros sagrados humanos, não esta ideia pobre de detalhes sobre jardins e fogueiras, entre o azul e o vermelho, entre o Ar e o Fogo Infinito. Cabia a mim encaminhar cada alma que passasse pelas minhas mãos a um destino rumo à aliviante inexistência ou a permanência perpétua num limbo existencial. Eu era, como não podia deixar de ser, o fiel da balança. Era eu quem a pendia de uma lado para o outro, não existindo a possibilidade de um equilíbrio.

O tempo nunca correu para mim com a cronologia lógica humana, o que nunca me permitiu saber quanto tempo exato me consumiam pensamentos a respeito das minhas obrigações. Muito tempo eu passava pensando sobre a melhor forma de ser este Deus, de levar comigo o destino de cada um e de saber o momento certo de por fim à vida de quem passava por mim... Não era fácil... 

No início dos tempos, eu era mais adorado, havia templos em meu nome e oferendas eram feitas a mim para que os corpos mortos fossem conduzidos ao fim adequado. Inúmeras religiões me nomeavam, eu possuía estátuas e desenhos gravados em pedra e era, muitas vezes, consumido por uma vontade infinita de me tornar invisível e esquecido. Não importava o quanto me bajulassem, o resultado jamais se influenciava pelas crenças humanas e em seus rituais de passagem. Isso, evidentemente, nunca ficou claro para eles. Mas com o tempo, eu fui sendo aos poucos devidamente negligenciado...

Não posso me dar ao luxo de dizer que fui pelos humanos esquecido, mas digo que, para o meu alívio, não mais fui adorado com tanta pompa e circunstância. Não... pensando bem, eu jamais poderia ser esquecido. Talvez eu fosse, cheguei inúmeras vezes à mesma conclusão, o único Deus lembrado insistentemente, ainda que muitos passassem a crer na existência de um Deus único. No fim, as maiores lamúrias vinham por e se dirigiam a mim. Todavia, eu agora era apenas "Deus", aquele que não olhou por alguém, que não impediu que algo acontecesse, ou, em alguns casos, o "Deus misericordioso" e dos milagres.

No incontável tempo em que me debrucei sobre meus próprios pensamentos, exercitei a arte da probabilidade e da experiência. Dizer a mim mesmo qual a melhor forma de agir era sempre uma das maneiras de me manter ativo e à frente do meu tempo, ainda que esta expressão se tornasse inútil para quem tinha pela frente o infinito.

Foi então, que diante da humanidade em seu auge de desenvolvimento tecnológico e científico, um mundo em que os Deuses foram quase relegados a segundo plano, eu vi finalmente a melhor maneira de agir e de me sentir confortável com a minha posição. Controlar a existência da forma mais natural e confiante possível, tendo a vida em uma mão e a morte na outra. Exercendo meu poder divino de forma demasiadamente comum.

Sozinho, eu me preparava para mais uma noite em claro. Mais uma em que seria o fiel da balança, mais uma que, depois de um tempo, se esvaneceria como construções de areia, mas ficaria gravada em minha memória como todas as demais escolhas que fiz e decisões que tomei... Uma entre tantas as noites em que cumpri o meu destino imutável e divino. Foi quando a porta de vidro se abriu e uma voz conhecida me chamou:

- Tudo pronto, Doutor. A paciente já está na sala de operações.

Fonte da Imagem: Reprodução/thatsreallypossible

domingo, 24 de setembro de 2017

A Rosa da Vida - O Retorno a Semsar


Ela não gostava de contos de fadas, tampouco ser chamada de princesa. Entretanto, quando o viu pela primeira vez, acreditou que ele pudesse ter saído de uma das histórias que tanto evitava. Só não imaginava que "felizes para sempre" fosse realmente tão longe da realidade que se formava à sua frente.

***

Ali, naquela noite chuvosa e com ventos arrebatadores, tudo o que ela queria era ter se lembrado de ter levado consigo um guarda-chuvas. Nem mesmo a marquise impedia que a água fustigasse seu rosto e o vento rodopiasse à sua frente, carregando folhas e galhos das árvores mais próximas. Aquele parecia não ser o seu dia de sorte. Mais cedo ela já havia se machucado ao tropeçar na escadaria da faculdade e cair sobre um estilhaço pequeno de vidro, suficiente para lhe abrir um corte no braço. Não seria nada demais, exceto pelo corte ter acontecido onde ela já possuía uma cicatriz antiga. Agora, o céu parecia ter aberto todas as comportas e decidido inundar o mundo de vez. Ela estava prestes a tomar coragem para atravessar os quatro quarteirões que restavam até a sua casa, quando ele virou a esquina e a encarou. 

Não, não olhou para onde ela estava, para um local próximo ou para alguém que também esperava a chuva cessar. Ele olhava diretamente para ela, como se sempre tivesse o intento de lhe encontrar. Ela aguardou que ele se mexesse, mas nenhum movimento se fez, e ela tinha a impressão de que ele nem mesmo se dava ao trabalho de piscar.

Decidindo-se pela coragem e por uma curiosidade que a assolou avassaladoramente, ela saiu para a chuva, encharcando-se no instante em que deu os primeiros passos em direção ao homem desconhecido.

De fato, ele a esperava. Tinha - agora ela via com clareza - os olhos do mais pálido azul que ela já vira, quase confundindo-se com o branco das laterais. Ao chegar até ele, sentiu o toque de sua mão gelada apertando-lhe o pulso e encostando-a contra o peito.

- Eu te levo para casa.

Ela tentou falar que não precisava, que não o conhecia, que não saía aceitando "caronas" de desconhecidos, mas tudo o que conseguiu foi segui-lo em silêncio, pela chuva.

Bastaram alguns passos para ela estacar, boquiaberta. Ele estava completamente seco, por mais que as gotas vindas do céu se tornassem cada vez mais grossas e dolorosas. Notando a sua parada, ele se virou e a puxou delicadamente, formando uma barreira contra a chuva no local em que a tocava.

Entraram em um beco escuro e ela começou a se considerar louca por seguir um homem que além de não se apresentar, parecia ter saído de alguma história fantasiosa e surreal. Ela sacudiu a cabeça para liberar os pensamentos, mas quando abriu os olhos novamente, prendeu a respiração.

Não se achava mais no beco escuro, mas em uma ampla sala. Ampla era uma palavra modesta. Estava num salão gigantesco, com candelabros presos ao teto e cortinas de veludo vermelho que cobriam metade das inúmeras janelas de vidro.

- Que lugar é esse? - ela perguntou, olhando ao redor. Sentia tanto frio que as palavras saíram gaguejadas, como que num idioma diferente.

Ele a encarou e, pela primeira vez, piscou os olhos pálidos e sem vida.

- A sua casa.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele saiu de vista, fechando uma grande porta de madeira com um estrondo.

Não, ela não gostava de contos de fadas. E quando afirmava isso, não se referia às versões modernas de estúdio de cinema que buscavam dar finais felizes para as narrativas originais. Ela se referia às histórias antigas, sombrias, que em sua grande maioria continha finais trágicos e repletos de sangue e devastamento. Essas histórias - essas sim - faziam-na querer distância dos livros das bibliotecas públicas, dos arquivos antigos recém explorados e dos sites secretos da internet. Entretanto, aquele homem... Ela já o tinha visto antes e a sua presença imediatamente a remeteu a uma dessas histórias...

Ele lhe estendeu uma toalha limpa e uma muda de roupas, fazendo-a gritar. Não tinha notado o seu retorno e, reparando-o mais uma vez, seus olhos pareciam realmente muito mais intimidantes do que antes.

Ela pegou os objetos e, sem se importar com a presença dele, secou-se e trocou de roupa. Quando seca e confortável, finalmente questionou:

- Quem é você, porque disse que essa é a minha casa e de qual universo paralelo você veio?

Ela não esperava o que aconteceu em seguida. Puxando-a pela cintura, ele lhe deu um beijo.

Um choque percorreu todo o seu corpo e foi como se um filme passasse em alta velocidade pela sua mente. Ela pequena, correndo pelos jardins de um castelo muito bonito e nevado... Então sendo apresentada a um único botão de rosa no meio da neve... O tempo passando e ela, já mais velha, indo cuidar da rosa única todos os dias... A rosa parecia perfeita, exceto por uma única pétala negra, que sempre murchava ao entardecer... Um relâmpago... A escuridão no céu... Então ele apareceu... tão bonito e imponente, porém seus olhos eram de um castanho profundo... Um beijo sob a lua... As mãos pousadas sobre os corações um do outro... Um clarão... Ela estava de volta ao salão, repleto de convidados... Ele se ajoelhou, abriu uma caixa de joias e... dentro dela, havia uma pétala da rosa vermelha... Uma explosão... Um homem encapuzado de vestes negras colocou as mãos sobre os olhos do jovem e com um estalo, os queimou, tornando-os de um azul pálido... Tudo ficou preto... Ela saiu correndo pelo jardim nevado e viu a rosa murchar aos poucos... Ela passou raspando nos espinhos da rosa... Um corte no braço... Sangue caindo na neve... O homem encapuzado saiu em seu encalço, mas antes que ele a alcançasse, ela entrou por uma fenda na árvore mais velha do jardim e desapareceu...

Soltando-se do beijo, ela caiu no chão, sem ar.

- Eu me lembro... Você é Ian, o Príncipe do Reino do Noite. Você foi o único que conseguiu encontrar a pétala da Rosa da Vida... Então você a trouxe para mim, para que ela se juntasse às demais... Mas o Vollum descobriu sobre a Rosa, e se ela estivesse completa, todo o seu esforço para destruir os Cinco Reinos estariam perdidos - ela falava sem respirar, num fluxo constante - Então...

- Ele nos achou, queimou os meus olhos para que eu não conseguisse mais vê-la - disse ele, os olhos cada vez mais pálidos -  Só que você conseguiu fugir... Quando passou pela fenda na Árvore Elda, você foi parar na dimensão 2149... 

- E esqueci de tudo o que aconteceu aqui antes... até...

- Até eu encontrar você.

Um silêncio se fez entre eles. Ela não conseguia acreditar que ele não a via, de fato. Todo o seu jeito, o modo como andava, se portava... o jeito que havia olhado para ela durante a tempestade...

- Como conseguiu ir para 2149? - ela perguntou, ainda tentando processar todas as informações.

Ele não respondeu de imediato. Quando falou, sua voz era suave, porém ligeiramente trêmula. Algo que passaria imperceptível por quase todos. Quase.

- Quando você desapareceu pela fenda, ela se fechou. Você sabia que isso aconteceria, eu cheguei à conclusão depois de um tempo. Entretanto, à época, não compreendi qual a sua intenção. Quando fugiu, o caos se instalou completamente nos Reinos. Vollum destruiu com facilidade a Rosa, mas ficou furioso pela Princesa Vermelha, Guardiã da Rosa da Vida, ter saído impune e destruiu tudo que tivesse ligação com você.

Ele fez um gesto para o entorno e ela sentiu o peito arder. Não havia mais nada além de um esqueleto do que fora seu belo e seguro castelo um dia.

- Acho que uma espécie de indiferença se apossou de Vollum e ele me poupou. Talvez por achar que cego eu nem mesmo serviria para o gasto de energia que teria ao me matar. O que ele não sabia - os olhos dele se cravaram novamente nos dela, e ela teve certeza de que ele a via -, é que ao retirar de mim a minha visão comum, ele de algum modo me permitiu... sentir você.

Um formigamento se apossou do corpo dela e ela sentiu algo há muito esquecido. Ian não era apenas o Príncipe do Reino do Norte... Era muito mais que isso.

- Como foi que você me achou, Ian? - ela tornou a perguntar.

- Por muito, muito tempo eu fiquei perdido. Não havia quase ninguém por perto, tudo parecia ter sido completamente destruído, e viver sozinho sem meus olhos parecia pior que a morte. Então... Num dia de chuva como hoje... algo mudou. Foi como se uma espécie de fumaça se fizesse à minha frente. E essa fumaça formava em meus pensamentos a sua imagem. Fraca, mais ainda assim era você. Isso aconteceu mais algumas vezes, todas elas em noites de chuva, e eu soube que, de algum modo inexplicável, eu conseguia sentir você.

Ian passou a língua nos lábios para umedecê-los e prosseguiu:

- Nunca saí das redondezas de Semsar desde o ataque de Vollum (creio ter sido dado como morto para o meu Reino, o que nem mesmo fez alguma diferença para mim, dado que eu me considerava morto por dentro), então decidi há algum tempo me aproximar da Árvore Elda, na esperança de que ela me desse alguma luz. Foi aí que hoje, em mais uma noite de chuva, eu senti você. Mas dessa vez, não foi apenas sentir. Eu realmente vi você, clara como nunca. Então, a Árvore Elda, como se também entendesse, tornou a abrir a fenda por onde você passou e... bem, eu te trouxe de volta.

Ela olhou para o corte profundo no braço. No exato lugar em que ela havia se cortado nos espinhos da Rosa da Vida quando fugia de Vollum. Um antigo feitiço pagão de localização... Ferir-se no exato local do primeiro ferimento. Mas como Ian conseguiu encontrá-la? Eles teriam que...

O primeiro beijo... A Transferência Secreta de Almas. Um coração pelo outro. Eles eram um só, e tinham feito o pacto em segredo.

- Ian... - ela o encarou com um movimento repentino - Por que você me trouxe de volta? 

- Por quê? - ele pareceu confuso - Ora, porque você me chamou. Não me pergunte como eu sei que era para fazer isso, eu simplesmente soube que era a hora de te encontrar.

- Sim, era mesmo a hora de me encontrar, mas... Não era para você me trazer de volta - o coração dela começava a acelerar, a pulsação na boca - Eu acho que...

- Que Vollum seria tão imprudente de deixar o Príncipe Ian vivo sem motivo? Você é esperta, Princesa Clara.

Ela e Ian se voltaram num único movimento, a tempo de verem uma mulher muito alta e magra surgir da escuridão da noite. Seus cabelos eram cor de musgo e Clara, mesmo antes de tudo acontecer, sempre achara que a existência dela era uma lenda. Ahnna, a Maga Esmeralda, Guardiã do Reino do Leste, Semsar.

- Você voltou, Princesa Clara. E Vollum a essa altura já deve estar sabendo que alguma coisa aconteceu, pois vigia Ian desde o seu sumiço. O que ele, não sabe - Ahnna deu um passo à frente, deixando os seus olhos esmeralda serem iluminados pela luz noturna que entrava por uma das janelas -, é que eu não sou apenas uma lenda. Não temos muito tempo, vocês terão que vir comigo.

- Para onde? - Ian quis saber, a expressão profundamente irritada.

- Para onde vocês possam entender as consequências desse retorno de Clara - Ahnna deu as costas para eles, iniciando uma caminhada lenta - E antes que me perguntem: A Rosa da Vida foi mesmo destruída por Vollum na noite do ataque a Semsar. Mas o poder dela ainda vive. 

Clara e Ian se entreolharam e seguiram Ahnna pela escuridão, mas nenhum dos dois percebeu o corte no braço de Clara se iluminar de um vermelho fogo por pequenos instantes.





quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A Lenda do Guardião do Tempo


As histórias de fantasmas sempre serviram a específicos propósitos... Era o tipo de papo para quem queria assustar as crianças, ou manter longe das suas propriedades os arruaceiros da madrugada. Em noites específicas, pessoas em todo o mundo se reuniam em torno de fogueiras em campings para contações de histórias, algumas mais, outras menos convincentes, mas que no frio da noite mantinham a todos ao redor do fogo.
O que não contavam para essas pessoas é que enquanto elas permaneciam aquecidas pelas chamas das fogueiras e pelo calor das narrativas, coisas muito mais interessantes ocorriam em outros lugares...

*** 

Não muito longe do camping da cidade de Vila de Cristo, uma garotinha dos cabelos trançados lia seu livro preferido. Era noite de Dia das Bruxas, e todos os seus irmãos haviam ido para o camping, para a noite de contação de causos. Ela, porém, havia recusado o convite na esperança de ter uma noite inteira de silêncio para poder desfrutar de suas leituras.

Era quase meia-noite e os olhos da pequena menina começavam a lacrimejar, contrários a todos os seus esforços para se manter acordada. Decidida a não se render ao sono, como uma adulta faria, ela saiu debaixo de suas cobertas e, apesar do frio, passou direto pelo casaco dependurado na cabideira e foi em direção à cozinha. Ao passar pelo quarto dos pais, viu que ambos estavam em um sono profundo, e ela andou pé ante pé para não acordá-los.

Quando chegou à cozinha, dirigiu-se até a bancada e, na ponta dos pés, puxou a garrafa de café para junto do corpo. Não era fã de café como seus irmãos mais velhos, mas sabia que aquela bebida quente e forte mantinha as pessoas acordadas e atentas.

Pegou um copo de vidro em cima da pia e colocou metade do copo com café. Quando o bebeu, contudo, quase cuspiu. Estava frio e sem açúcar. Ficando na ponta dos pés, despejou o resto do líquido na pia e estava prestes a lavar o copo quando o viu, pelo vidro da janela.

Lá, entre as árvores do jardim. Um lobo branco, de olhos vermelhos e um brilho intenso vindo de seu peito.

A menina se arrepiou. Era a primeira vez que via um lobo, e aquele parecia muito diferente do lobo que lia em suas histórias favoritas. Foi até a porta da cozinha, abriu-a para a noite gélida e saiu para o jardim.

A sua camisolinha fina balançava com o vento, mas ela se encaminhou para onde o lobo estava, estático, encarando-a. Não tinha medo dele. Queria provar que era uma garota de coragem, inclusive para dizer aos seus irmãos mais velhos o que havia feito.

Ele, o lobo, permanecia parado. Seu pelo branco era a coisa mais bonita que ela já havia visto. Aproximando-se mais, a menina percebeu que o que ela vira brilhando no peito do lobo era na verdade uma corrente prateada, de onde pendia um relógio fechado. Ela sabia porque era igual o relógio de bolso do seu pai. Não se contendo mais de excitação, ela estendeu a mão para tocar o pelo macio do lobo.

Nesse instante, a lua saiu de trás das nuvens e clareou todo o jardim. Quando sua luz iluminou o lobo, algo muito mais impactante aconteceu. A mão da garotinha, que estava prestes a tocar o animal, atravessou-lhe, pegando o vento.

Piscando, a menina olhou para o lobo e engoliu um grito. Ele não tinha mais um corpo real. Era como um espírito, um fantasma fosco, por onde ela via o restante das árvores do jardim. Apenas os olhos do lobo pareciam não ter perdido o brilho vermelho como fogo.

Ao puxar sua mãozinha, ela tocou o pingente no pescoço do lobo. Então o pingente era real! Ela apertou a ponta superior do relógio e ele se abriu, revelando as horas.

Meia noite.

Um grito foi ouvido de dentro da casa, e a menina imediatamente correu de volta, trancando a porta da cozinha e nem mesmo olhando para trás. Subiu as escadas rapidamente e ao chegar no quarto de seus pais, viu a mãe de pé,  parada, com o olhar horrorizado.

- Ele... ele acordou...foi olhar as horas e...

Ao contornar a cama, a menina entendeu. Seu pai estava caído no chão, os olhos abertos, vidrados. De uma de suas mãos, pendia o relógio de bolso, aberto, marcando meia-noite.

A menina olhou pela janela, à procura do lobo, mas ele não estava mais ali.

A menina acordou, gritando. Ainda estava em sua cama, com o livro aberto sobre o colo. Ela olhou para o relógio em sua cabeceira. Ele marcava 23h57.

Saindo correndo, ela foi até o quarto de seus pais bem no momento em que seu pai estendia a mão para olhar o relógio de bolso.

A menina se jogou na frente dele, jogando-o para o lado e impedindo-o de abrir. Colocou o seu livro preferido sobre o colo do pai e, apontando para a história, disse:

- O Alba Lupus, papai. O guardião do tempo, que nas noites de lua cheia...

- ... A cada 2150 anos, capta a vida de pessoas que olham para o relógio à meia noite, para manter a roda do tempo girando. Filha, isso é só uma lenda. Além do mais, eu que escrevi ela pra você, a partir de um sonho que tive com o meu relógio...

Um barulho oco foi ouvido e ambos olharam para o lado.

Caída no chão, com o relógio de pulso entre as mãos e os olhos vidrados, estava a mãe da garotinha.

Puxando o pai pelas mãos, a menina viu pela janela os olhos vermelhos do lobo desaparecerem, aos poucos, entre as árvores do jardim.